Das gratas surpresas de viagem: pousada Refúgio Dr. Souza Leite, em Bananal-SP

Migramos para um novo domínio, veja o post AQUI: 

https://oqueijovainamala.com.br/das-gratas-surpresas-de-viagem-pousada-refugio-dr-souza-leite-em-bananal-sp/

www.oqueijovainamala.com.br

*************

 

 

Como já contamos em outros posts, escolhemos Bananal como cidade pouso para visitarmos o Parque Nacional da Serra da Bocaina, mesmo sabendo que a melhor base seria São José do Barreiro. Escolhemos Bananal unicamente por questão de economia, uma vez que não encontramos hospedagens com valores mais amigáveis na cidade vizinha. Além disso, pesquisando vimos que a cidade também contaria com várias atrações naturais e culturais que complementariam nossa estadia e roteiro.

Bananal é uma cidade pequena, forte em turismo rural de “fazenda” e a maioria das hospedagens seguem este estilo: boa estrutura, pensão completa, conforto e claro, um custo mais elevado, compatível com o ofertado. Queríamos apenas cama, chuveiro e se possível uma estrutura de cozinha.

Encontramos a pousada no Google Maps, pesquisando a área no entorno de Bananal. Vimos que ela estava num contraforte da serra paralelo ao da entrada do Parque, o que nos exigiria descê-la e subi-la algumas vezes. Por outro lado estaria próxima às cachoeiras do Bracuí e do Rio Mimoso, também indicadas no Google Maps e que prometiam um grande visual. Uma aura de mistério já começava aí, já que não encontramos qualquer outra referência à pousada em qualquer outro veículo de busca. Era quase como se ela não existisse, ou nunca fora visitada por ninguém. Ela até tinha página no Facebook, mas achamos que nem teríamos retorno, uma vez que ela era alimentada apenas esporadicamente e os poucos comentários eram em sua maioria antigos. Para nossa surpresa, conseguimos confirmar uma reserva e assim fomos, na sorte e no risco.

No alto da Estrada Sertão da Bocaina está pois localizada a Pousada Refúgio Doutor Souza Leite. Pelas (poucas) fotos encontradas no Facebook vimos que se tratava de uma pousada rural simples, mas que oferecia exatamente o que precisávamos, incluindo cozinha no próprio quarto. A reserva foi finalizada pelo whatsapp, de forma informal, com depósito antecipado de 50%, sem qualquer dificuldade.

Saindo de Bananal começamos a subir, subir, subir…, e subíamos, subíamos, subíamos… Uma serra louca, com trechos muito íngrimes e sinuosos. Conforme a estrada ia se afastando da cidade as poucas casas e propriedades rurais se tornavam ainda mais escassas. Uma vista belíssima da serra ia se apresentando. Por fim, como continuávamos subindo mais e mais, chegamos a um ponto em que o asfalto terminou, tornando-se estrada de terra, os vestígios de ocupação humana desapareceram e surgiu uma densa neblina. 

20170929_111701.jpg
Ficamos um tempo só contemplando este cenário, boquiabertos com tamanha beleza

Eram algo perto das 17 horas. Já havíamos saído de Bananal há quase 01 hora, e rodado quase 30Km. A neblina era cada vez mais densa. Estávamos certos de que, sem perceber, tínhamos atravessado algum portal cósmico, e vivíamos algum tipo de fantasia surreal. Não importava: o cenário era fantasmagórico, mas lindo demais.

Enfim, depois de 32Km, encontramos a nossa pousada. A primeira cena vista foi: uma grande porteira de madeira, com uma placa rústica indicando o nome da pousada, uma pequena placa ao lado com os escritos: “Dr Souza Leite – clínica geral, cirurgia de urgência, moléstias de senhoras, partos”, duas grandes imagens de Che Guevara e cartazes comunistas. (!!!) Surreal.

20170925_162637
Porteira de entrada da Pousada: ao alto as placas indicam “Fazenda Vargem Alegre” e “Refúgio Dr. Souza Leite”

20170925_162651

Não havia nada, nem ninguém – só a gente, Catarina, muita neblina e Che. Foi uma cena muito mágica, tipo cena de filme, sabe?

20170929_111556.jpg
Estradinha de acesso na chegada

Entramos pela porteira e seguimos até a casa que reconhecemos como sendo a sede da pousada, pelas fotos do Facebook. Da porteira até a casa passamos por uma área verde vasta, com algumas poucas construções isoladas que pareciam abandonadas mas compunham ainda mais aquele cenário mágico e fantasmagórico. A neblina seguia forte. Um filme de Bergman certamente poderia ter sido rodado ali.

A casa estava trancada, mas de dentro ouvíamos o som da TV. Tentamos abrir a porta, chamamos, batemos palmas. Nada.

20170925_165941.jpg
Catarina na Pousada, após nossa chegada

Próxima à sede uma pequena casa, um lago, árvores e uma grande área descampada. E a neblina intensa. Nós dois no meio do nada, o único vestígio de presença humana era o som da TV que vinha de dentro da casa trancada, mas nenhum outro barulho existia para além. Seguia a certeza de que tínhamos atravessado um portal e nos transportado para um outro mundo inabitado!

Ficamos rodando a casa, ora íamos ao gramado, ora na varanda. Estávamos meio que tentando entender a lógica do lugar e processar tanta informação: como assim uma pousada em que na entrada tem uma foto enorme do Che? Como assim este lugar no meio do nada, como assim, COMO ASSIM?

20170929_105742.jpg
Varanda da Casa/Pousada, de onde se vê a porta principal

Eis que a pé, pela estrada, um homem vem, apressado. Era Senhor Miguel, o dono. Vestido de modo simples, desculpou-se dizendo que estava trabalhando do outro lado e não tinha nos visto ainda.

Apresentou-nos a casa: a pousada tem em sua sede principal 09 quartos, sendo dois deles com cama de casal e uma de solteiro e as demais com cama de casal. Todos os quartos tem banheiro e cozinha, com fogão, geladeira e utensílios, permitindo o preparo de refeições no próprio quarto. Isto é essencial, a pousada está numa área muito isolada e de acesso complicado, então poder cozinhar é importante.

Na área comum uma grande cozinha muito bem equipada para uso comum dos hóspedes, incluindo diversos tipos de temperos e alguns mantimentos. Ao lado, uma sala de jantar, com mesas e cadeiras, que os hóspedes podem usar para tomar café, ou fazer refeições.

20170929_103748
Refeitório: mesas com cadeiras
20170929_103801
Há uma abertura por onde a cozinha comunitária se comunica com o refeitório (para passar pratos, etc.) , indicando que possivelmente um dia ali pode ter funcionado como restaurante ou talvez existisse a intenção de fazê-lo. DETALHE: O homem na foto ao alto do lado direito é o Sr Souza Leite, que dá nome à Pousada. Vai lendo…
20170929_103809
A cozinha é muito rica em talheres e utensílios, não sentimos falta de nada. A faixa homenageia a Rússia Soviética

20170929_103833

20170929_103845
Sim, os cartazes estão na cozinha e em TODOS os cômodos
20170929_103852
Muitos “pacotinhos” com os mais variados tipos de mantimentos: um “cado” de cada coisa (feijão, arroz, macarrão, etc.) e temperos ficam disponíveis para os hóspedes

Mas a cereja do bolo era mesmo a sala de estar: um toca discos antigo, discos de vinil, uma TV antiga, rádio antigo (daqueles de várias faixas, inclusive ondas curtas, o que nos permitiu sintonizar rádios de todos os lugares do mundo, falando russo, alemão, espanhol, árabe… – Sr. Miguel nos contou que ouviu naquele rádio o último discurso de Allende pouco antes de capitular ante o golpe militar no Chile) e muitos livros e revistas com temática política e comunista. Toda a pousada é decorada com cartazes com a mesma temática e todos os quartos também: a icônica imagem de Che Guevara fotografada por Alberto Korda (entre os livros da mencionada biblioteca do Sr. Miguel há um com a história do fotógrafo – haja História!) nos mira de todos os lados.

20170929_103620
Sala de estar: ao fundo o toca disco com vinis. Na mesa ao centro, livros e revistas, praticamente todos de temática socialista/comunista

20170929_103626

Chegamos numa segunda-feira e ficaríamos até sexta e Sr Miguel disse que seríamos os únicos hóspedes por ali,  nos deu a chave da pousada e disse que poderíamos trancá-la por dentro. Por este motivo usamos todos os dias apenas a cozinha principal e passávamos a maior parte do tempo livre na sala de estar comum. A pousada era toda nossa, num lugar isolado. Então quase todo o tempo não víamos nenhum vestígio de outras pessoas.

20170929_103639
Um dos quartos: quadros de Che estão em todos
20170929_103644
Este é o quarto 1, que além da cama de casal tem também a cama de solteiro. Ao fundo, a cozinha privativa

20170929_103702

Até hoje nos perguntamos se de fato não atravessamos um portal. Um lugar de atmostera mágica, praticamente no “meio do nada” (fica no KM 31 da Estrada e ela termina no KM 36), no alto de uma serra, com uma decoração comunista, um silêncio absoluto, o vizinho mais próximo está a sabemos lá quantos quilômetros de distância. Para além de qualquer convicção política é sem dúvida um lugar histórico, que reflete a personalidade de seu dono e aí mora toda a graça: mais do que ter uma experiência de hospedagem, tivemos também uma experiência social, cultural, política, vivencial…

20170925_170955

20170925_171311
Na parede do corredor que leva aos quartos
20170925_180950
Leo é o rádio que sintoniza rádios com idiomas de todos os lugares do mundo

Em cada canto da decoração, em cada objeto, em cada manifestação política a gente via o Sr. Miguel: é como se a pousada representasse o seu próprio Manifesto Comunista particular – bem assim mesmo, no meio “do nada”, feito por ele, para as pessoas que lá chegam. Não se trata de uma pousada com grande divulgação (como citado, apenas encontramos sobre ela no Facebook mesmo) e nos parece quase que surreal encontrá-la: é o tipo do lugar que você acha porque alguém conhece e indicou o por “casos do acaso” como foi com a gente. Coisas da vida né?

20170926_180304.jpg

Um lugar simples, sem qualquer luxo, mas incrivelmente acolhedor e funcional.

Mas sem sombra de dúvida a melhor parte foi conhecer Sr. Miguel. Ele mora na casa ao lado da sede da pousada, uma casa pequena e simples, mas parece passar a maior parte do tempo trabalhando na propriedade que fica do outro lado da estrada, de frente para a porteira da pousada. Conversando com ele entendemos que estas terras também são dele, tudo era a fazenda do pai dele, o Dr Souza Leite. Médico por formação, decidiu comprar a fazenda e ali viveu, por muitos anos. Não há como não notar o afeto que ele tem pelo pai: o nome dele batiza a pousada e várias referências a ele são vistas, incluindo sua plaquinha de “médico” afixada bem na porteira principal, com os detalhes dos atendimentos que ofertava. (Algo muito típico dos interiores de antigamente). 

Hoje Sr. Miguel toca a propriedade e a pousada, que além de tudo é a sua própria casa. Uma figura simples, muito humana e delicada, destas que dá vontade de ficar horas conversando. Se o hóspede se afinar politicamente com ele aí é que o papo vai longe!

Deixamos a pousada com aquela sensação de: “puxa vida, porque fica tão longe de BH?”. O nome refúgio não é a toa, é mesmo um grande refúgio em meio a natureza. Escolhemos a pousada completamente no escuro, sem qualquer referência e as fotos do facebook não diziam muito sobre ela (do ponto de vista de estrutura e conforto ela é realmente melhor ao vivo). Ficamos muito felizes com a escolha acertada que fizemos.

Este local nos marcou muito, especialmente pela história do proprietário e por tudo o que ele acredita e sustenta ali.  Um lugar afetivo, em que as crenças e história do dono estão amplamente estampadas pelas paredes (poderia-se dizer até excessivamente, mas talvez aí esteja a graça da coisa). Sem dúvida, foi uma experiência inesquecível e muito surpreendente para nós.

20170926_085844
A área da Pousada, já sem a neblina. O lugar é muito bonito
20170926_085852
Não é a toa que se chama refúgio
20170928_114113
A Estrada Sertão da Bocaina, onde fica a pousada, é lindíssima! Mas não dá pra ficar indo e vindo do centro de Bananal toda hora, é cansativo. Por algumas vezes demos carona para trabalhadores rurais no caminho. Eles nos contaram que há ônibus apenas uma vez ao dia: leva pela manhã os moradores ao centro de Bananal e traz ao final da tarde. É bem comum o ônibus não sair (ou porque quebrou, ou porque choveu, etc). Segundo uma senhorinha que pegou carona conosco, o pessoal fica sabendo “bocalmente” (sic) – um vai contando pro outro se tem ou não ônibus no dia e cada um se vira como pode. Nesta situação o jeito é tentar carona pedindo na estrada, o que é raro, já que a via é pouco frequentada – ela não leva a “lugar algum”, termina no Km 36 na Pousada do Rio Mimoso –  ou ir a pé, de cavalo, bicicleta…

 

20170928_11414220170929_105621

Visita realizada em setembro/2017

Pousada Refúgio Doutor Souza Leite

SP 247 (Estrada Sertão da Bocaina) – KM 31, Bananal-SP.

Facebook: https://www.facebook.com/PousadaRefugioDrSouzaLeite/

Contatos: (12) 3116-1948 / (24) 99835-9358 (Whatsapp Sr. Miguel)

Importante:

– A pousada fica quase no final da Estrada e esta termina na Pousada do Rio Mimoso (ou seja, não é uma estrada que chega a algum lugar, ela acaba “nela” mesma). A estrada é em subida quase todo o tempo e sinuosa, é cansativo ir e voltar toda hora do centro de Bananal. Então vale muito a pena já ter um bom suprimento de compras. A cozinha compartilhada é muito bem equipada e a cozinha do quarto permite preparo de pequenas refeições. Não tem nada perto, supermercado e padaria só no centro de Bananal mesmo. 

– Pelo mesmo motivo vale a pena ter um suprimento de medicamentos e itens de primeira necessidade: sempre levamos remédios básicos em nossas viagens e lá isto se torna ainda mais essencial. 

– Trata-se de uma hospedagem simples, mas bem aconchegante. Não oferece café da manhã ou qualquer tipo de serviço: apesar dos quartos privativos com banheiro, lembra muito um esquema Hostel. 

– Por se tratar de área isolada, repelente para o corpo, Baygon e repelente em pastilha para o quarto é desejável. 

– O dono da pousada é declaradamente comunista e toda a pousada é decorada com esta temática, não há como não ver: as fotos estão espalhadas pela pousada e há uma foto gigante de Che Guevara logo na entrada. Contudo o proprietário foi muito discreto conosco durante todo o tempo em que lá estivemos e passou a maior parte do tempo trabalhando nas terras. Em nenhum momento ele foi chato ou invasivo, muito ao contrário: para pessoas afins e ou abertas e curiosas (como a gente) é uma experiência cultural muito rica, contudo pessoas que são contrárias a esta ideologia e/ ou possam se incomodar talvez não seja a melhor opção de hospedagem.

Anúncios

4 comentários em “Das gratas surpresas de viagem: pousada Refúgio Dr. Souza Leite, em Bananal-SP

Adicione o seu

  1. O lugar é maravilhoso. De fato parecemos estar em outro mundo. Visitei a pousada há uns 5 anos e reforço tudo o que foi relatado aqui. Lugar simples, acolhedor perfeito para o descanso. Além de tudo temos o Miguel que é uma ser humano a parte. Recomendo a visita a cachoeira do Bracuí. É uma trilha um pouco longa para se realizar a pé, porém a vista de Reis é fantástica.

    1. Olá Sérgio! Que gostoso ler seu comentário! Conhecer a pousada e Sr. Miguel foi uma experiência que guardamos com muito carinho. Visitamos a cachoeira do Bracuí e contamos a experiência num outro post aqui no blog e ela é mesmo incrível. Vontade de voltar!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑